O menino que nasceu de duas mães

Foi ao som da canção A Thousand Years, da norte-americana Christina Perri, que Caio Luz chegou ao mundo, no último dia 15 de novembro. Fã do reality show The Voice Brasil, sua mãe, a química Priscila Luz, 30, levou para a sala de parto um tablet com a gravação da canção nas vozes dos participantes da competição Sam Alves e Marcela Bueno. Quando o trabalho de parto de sua mulher, a administradora de empresas Eliane Luz, 42, começou, a canção tomou conta do lugar.

“Foi muito emocionante. Eu segurei a mão de Eliane e vi Caio nascendo… a música que a gente escolheu tocando… Foi tudo lindo! A equipe médica ficou emocionada… O momento mais feliz da minha vida”, lembra Priscila, a mãe genética de Caio. Sua esposa é a mãe biológica do menino.

Caio é resultado de uma fertilização in vitro. Priscila doou os óvulos, que foram fecundados em laboratório, com o espermatozoide de um doador anônimo. Na sequência, o embrião foi transferido para o útero de Eliane, que gestou e pariu o bebê. O tratamento todo, desde os testes iniciais para saber quem teria mais chances de engravidar, teve 11 meses de duração.

A maternidade comum era um sonho antigo do casal, que se formou há quase seis anos (“cinco anos e 11 meses”, precisa Eliane). As duas se conheceram através da rede social Orkut, encontraram-se pessoalmente e nunca mais se separaram. “Para você ver do que é capaz um ‘oi’ no Orkut”, brinca Priscila.

Elas registraram união estável há cerca de três anos e se casaram em abril de 2013 no cartório Jereissati, no comecinho da gestação de Caio. “Rapaz, eu tinha engravidado a mulher, como é que não iria casar? Aprendi desde pequena que quando a gente engravida uma mulher tem que casar com ela, não é?”, ri-se Priscila.

Por pouco não foi ela a ficar grávida. Antes de iniciar o tratamento, ambas estavam dispostas tanto a ceder o óvulo quanto a gestar a criança. “O importante para a gente era que fosse um processo que tivesse participação efetiva das duas”, frisa Eliane. “Mas eu faço mestrado em Química. Aí você imagine, eu, grávida, dentro do laboratório, respirando solvente e mais dezenas de outros produtos químicos todo dia… Não ia dar certo mesmo. Foi quando os exames apontaram que a Eliane tinha mais chances (de uma gestação bem-sucedida). E como é uma coisa delicada, pode não dar certo e tal, ainda por cima é muito cara, a gente optou por menos riscos”, completa Priscila.

Avós

A ideia de ter um neto sendo gerado na barriga de uma outra mulher que não sua filha causou estranheza nos pais da química. “Eles diziam que não ia ser neto deles, que não podia. ‘Como assim, a outra é que fica grávida e o filho é seu?’”, diverte-se Priscila. “Agora, já estão babando. São os avós mais corujas do mundo. Vêm sempre visitar o Caio, estão apaixonados por ele”.

O estranhamento diante desta nova formatação familiar não foi exclusivo dos avós. Já na maternidade, pouco tempo depois do parto, Priscila o sentiu na pele. Como Eliane estava se queixando das dores do pós-operatório, sua esposa pegou o bebê para amamentá-lo. Neste momento, uma enfermeira chegou ao apartamento e viu a cena.

“Eu fiz tratamento hormonal durante a gravidez de Eliane, passei mais de um mês com desmamadeira. Ou seja, eu tinha leite também, (o tratamento) deu certo. Por isso fui amamentar o Caio. Quando ela chegou e viu foi logo dizendo: ‘Que história é essa?’ A mãe é a outra, larga esse menino!’”, lembra Priscila. “Não adiantou nada eu dizer que era mãe também. Ela saiu como um furacão e voltou com a enfermeira-chefe para pedir explicações (risos). A sorte é que eu sou muito de brincar, levo na esportiva”.

 Filiação

Mesmo com todo senso de humor, Priscila e Eliane enfrentaram algumas agruras para registrar Caio. No documento do nascido vivo fornecido pelo hospital para o devido registro em cartório só constava o nome de Eliane como mãe (o do pai ficou em branco). E para as duas era de fundamental importância que a maternidade fosse compartilhada em toda a documentação do filho.

A preocupação não era à toa. Uma amiga do casal que já havia passado pela mesma situação teve que registrar o bebê no nome de apenas uma das mães, porque o recém-nascido tinha problemas de saúde e precisava do registro civil com urgência para poder ter acesso ao plano de saúde.

Hoje, muito depois do nascimento da criança, a Justiça ainda não autorizou a alteração do primeiro registro para que o nome da segunda mãe também conste conste no documento.

“É uma situação constrangedora, pois a segunda mãe não pode resolver absolutamente nada com a criança sem a presença da outra. Por isso fizemos questão de resolver tudo de uma só vez”, explica Eliane.

O problema é que o sistema de registro civil no Brasil ainda não dá conta destes novos formatos de família. “Nos documentos tem ‘nome do pai’ e ‘nome da mãe’. O correto seria ter ‘filiação’. É muito simples e contempla todo mundo. Na verdade, desde o hospital, eles não sabiam como encaixar a gente”, afirma Priscila.

Para conseguir registrar Caio como filho das duas, o casal recorreu ao defensor público Tibério A. Lima de Melo, que solicitou a autorização à juíza coordenadora da Infância e Juventude, Alda Maria Holanda. A história do bebê com duas mães sensibilizou a juíza, que concedeu o registro. Com autorização em mãos, o casal foi ao cartório Botelho para finalmente registrar Caio, no começo de dezembro.

“Foi um dos momentos mais tensos para a gente, porque ninguém sabia se o cartório aceitaria, mesmo com a ordem da juíza”, lembra Eliane. “Quando eu vi a oficial de justiça do cartório (Clarisse Helena Botelho da Silva), reparei logo que ela tinha uma medalha bem grande de Nossa Senhora no pescoço e me apeguei com a minha, que eu sempre carrego também. Não era possível que Nossa Senhora não ajudasse, né? Ela também é mãe”, relata Priscila.

 Pioneiras

Se houve intervenção da santa não se sabe, mas o fato é que Clarisse Botelho registrou Caio como filho biológico de Eliane e Priscila. Outra diferença na certidão de nascimento do bebê é que onde comumente estão listados os avós paternos e maternos constam apenas “avós”.

“A oficial disse que o cartório não estava preparado para esse tipo de situação, mas que iria resolver nosso problema”, afirma Eliane. Nós fomos o primeiro caso em Fortaleza do registro de duas mães biológicas através de um ofício, os demais casos foram através de processo judicial, o que é muito demorado”, comemora.

Fonte: O Povo

 

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