Entrevista dada por Nany People a Revista Junior # 37

Garimpando na net, encontramos uma entrevista bem legal de Nany People para a Revista Junior#37, onde ela fala sobre a carreira, a vida, e de como as drogas químicas acabaram com a alegria da noite. Embora a matéria seja de 2012, a sua personalidade e alegria marcante, continuam a exercer fascínio e curiosidade entre as pessoas. Por isso, reproduzimos aqui, na íntegra a matéria com a entrevista em que ela fala tudo e mais um pouco…

Nany People ficou mais conhecida por suas performances como drag quen na noite ainda na década de 1990, um papel que ela exerceu tão bem que acabou ofuscando um lado profissional na trans mineira: o de atriz. Somente depois do que ela classifica de “invasão da droga química” na noite gay foi que Nany percebeu que as drags estavam saindo do papel principal para serem “varridas para debaixo do tapete”.

Com talento nato para a atuação, simpatia televisiva, talento para construção de personagem indiscutível (o mais famoso dela acabou se tornando ela mesma) e uma capacidade vocal que desce e sobe o tom de voz em um piscar de olhos, ela voltou para os palcos – de onde não saiu mais e comanda atualmente seu solo “Então… Deu no que deu”, um stand-up comedy que fala justamente da relação homem-mulher.

Nany é uma explosão intensa de som, cores e sentimentos que se misturam em opiniões muito bem demarcadas por uma vida que nem sempre foi cheia de glamour, sorrisos e dinheiro. Mas uma coisa é certa: a tristeza passa longe dessa fala que ainda conserva um pouquinho do sotaque mineiro. “Se você não usar do humor para dar o seu recado ele até desce, mas desce queimando que nem cachaça ruim.”

A gente veio conversar no último dia de apresentação do seu stand up aqui em São Paulo. O show continua?
Hoje é o último dia aqui no Teatro Nair Bello, foi uma temporada relâmpago. É de praxe os teatros de São Paulo fazerem essa temporada de férias, porque na verdade o ano teatral começa, como tudo no Brasil, depois do Carnaval. Então em janeiro e fevereiro a maioria dos teatros faz esse tipo de, vamos dizer, avant premiére de férias. Eu estreei em 2007 uma outra peça no teatro Brigadeiro (“Nany People Salvou Meu Casamento”) para ficar dois meses e fiquei oito meses. Aqui está um sucesso, está maravilhoso, o pessoal está adorando, mas o teatro funciona como escola, então não tem como continuar porque a escola do Wolf Maya tem que continuar. A gente queria ficar, mas não tem como porque a escola funciona. Fiquei em cartaz aqui cinco semanas, foi maravilhoso, foi ótimo, e na verdade por ser um texto em formato stand up ano passado eu fiquei dois meses no Teatro Procópio Ferreira, janeiro e fevereiro. Mas o espetáculo muda muito.

Sempre tem uma piada nova com o que está acontecendo. Não é uma coisa datada então?
Não, é uma coisa atemporal. A grande surpresa é que as pessoas não sabem da minha formação teatral, então acham que por ser a Nany do showbiz, a Nany que se lançou como drag e virou trans, acham que vai ser um show segmentado, um show tendencioso.

Mas você tem a formação teatral.
Sim, eu digo segmentado no sentido de ser GLS, de ser bandeirista, só para gay. Nada disso, pelo contrário, faço uma referência gay só, não faço mais nada. Falo de relacionamentos, falo de homem, de mulher.

E no que você pensou então para elaborar a apresentação?
O que me inspirou a escrever esse texto foi o seguinte, como eu faço há oito anos o Risorama, a grande maioria dos humoristas que fazem humor são homens. Dizem que mulher é muito complicada para se abrir, de se expor, de se mostrar em público. Ela se abre para o parceiro, agora em público ela não gosta de falar dela. A mulher não peida, nada disso, entendeu? Então os homens acabaram pegando o universo feminino e deitaram e rolaram em cima, que mulher é isso, mulher é aquilo, só pilota fogão. Aí quando eu virei dona Nany pude ver pra onde canta o sabiá do outro lado da pinguela, eu falei ‘não é bem assim meu bem’. O vento que venta aqui é o mesmo que venta aí. Então eu fiz um discurso, pinguei uns is, cortei uns Ts e falei exatamente como seria então a visão das mulheres do universo feminino vendo os homens.

E de São Paulo você vai para o Brasil todo viajar? Fiquei sabendo que tem show marcado em Macapá já.
Eu estou viajando o Brasil há dois anos e pouco já, eu já fiz de Belém a Porto Alegre, vou fazer agora Macapá. Só que é como eu falo no começo quando entro pela segunda vez: o Brasil você muda de lugar, muda de território, muda de comida típica, muda de sotaque, são vários Brasis em um só, mas uma coisa não muda, é o elemento humano. Homem e mulher vai ser homem e mulher aqui, na China, na Conchinchina, no Kuwait, onde quiser,entendeu?  Então isso é muito legal, o discurso que eu faço em relação a isso. O que me interessa é isso, esse material humano da relação do homem com mulher, das ambigüidades, das ambições, das necessidades, das frustrações (sobe o tom de voz).

E onde você busca matéria-prima para o texto? O texto é de sua autoria, não é?
É feito disso, você analisar cenas do dia-a-dia e tirar partido em cima disso. É você olhar a mesma cena com outros olhos e decantar de um jeito que as pessoas olham de uma maneira distinta, você destila a ação diferente. Uma coisa que passaria normalmente batida você faz questão de deixar ela bem narrada e bem exemplificada. Como por exemplo: o cara vai te buscar pela primeira vez para jantar, ele espera cinqüenta minutos e não vai reclamar porque ele quer pegar a tua Caixa Preta, querida, ele quer dar um tiro na sua coruja. Então você desce e ele tá parecendo o Gato de Botas do Shrek, com cara de manha, sabe? Uma coisa normal que acontece e que dá para tirar partido. E as pessoas interagem, se entregam muito. O grande diferencial disso é que o stand up acabou ficando muito prostituído, porque todo mundo acha que pode fazer stand-up.

Isso é verdade, tem uma proliferação enorme de gente fazendo e às vezes nem é ator, é só um cara engraçado.
Ou nem é tão engraçado assim, né? Tem uma escola de stand-up que os atores acham que quanto mais ácido, mais cínico, mais crítica for a piada mais inteligente ele se acha, e não é bem assim. O microfone é usado como uma arma, a seu favor e contra você. Estão os exemplos na Mídia aí que não me deixam mentir. Eu acho que pelo fato de a maioria não ter formação teatral eles começam uma coisa que eu canso de dizer o tempo todo. Bertold Brecht, que é um grande dramaturgo alemão, que dentre outras coisas como ter colocado a mulher como eixo da ação de qualquer homem, porque antes a mulher era só figura de retórica, ele colocou uma coisa que é assim: qualquer discurso para ser pertinente tem que ser bem-humorado, se você não usar do humor para dar o seu recado ele até desce, mas desce queimando que nem cachaça ruim, ele não frui.

Você acha que está sendo mal aproveitado o humor então?
Ele está sendo destorcido. Stand-up virou show de drag. Nos anos 1990 quando surgiram as drags tinham poucas, aí virou Gremlin, jogava água multiplicava. Aí você vê, bateu a peneira, quem ficou? Haja o que houver, geração entra geração sai as mesmas que estão no patamar do Olimpo ainda são Léo Áquilla, Dimmy Kieer, Márcia Pantera, Verônica, que Deus a tenha, Silvetty Montilla, tia Nany, que foi a última a chegar. Aí dizem ‘a Nany não é mais drag’. Fato, não sou mais drag, comecei como drag e virei trans, mas enfim, isso não tira o meu brilho, o meu savoir-faire e meu histórico.

Tem alguma coisa que você goste mais entre estar na televisão, no teatro, na noite?
A noite ficou muito distante para mim, querido.  Eu comecei na noite e trabalhei quase 20 anos na noite, mas a noite se tornou distante pelo seguinte: quando a droga química invadiu a noite nos anos 2000, a drag deixou de ser a personagem principal da ação porque a droga química não deixa as pessoas pensarem se quer prestar atenção em um discurso, em uma performance, ou coisa assim. As pessoas interagem com o que elas sentem, elas sentem a música. Então eles se entorpecem de bala, de ecstasy, do que vier, e aí o DJ virou a estrela da noite. Isso eu percebi há 12 anos, em 2000, quando virou a década, eu falei ‘estamos todas sendo varridas para debaixo do tapete’. Aí eu voltei para o meu nicho, voltei para o teatro. Porque se eu não tivesse voltado para o teatro eu teria sido literalmente esquecida como várias amigas minhas foram e tiveram alguns finais inclusive em função disso, em função do mercado de trabalho ter se fechado tanto. Entre outras coisas, todas têm seus tipos de vida, tal, mas o emocional também colaborou muito nisso. Eu ouvia delas isso, que não tinha mais show, que o show não era valorizado. Então para você ver, Pandora, Simplesmente Nenê, a própria Verônica que acabou entrando por outro caminho. Infelizmente foi isso, a noite mudou o nicho, o personagem da drag que era estrela. O que me admira é os DJs que começaram nessa época. Posso dar um exemplo meu. A única boate que eu trabalhava até pouco tempo atrás era a Tunnel, trabalhei 19 anos lá. Um DJ que começou comigo, que foi pela primeira vez à Tunnel porque eu levei, porque era meu aniversário e tal, cheguei um dia de show para ele e pedi música de show. Ele me disse que não tinha música de show. Eu falei ‘então vai tocar em outra boate, caralho. Bicha, você começou a tocar aqui, o que é que você está pensando? Nem tudo na noite é bala e ecstasy, tem gente que gosta de um bate-cabelo, tem gente que gosta de ver a bicha ferver’. Aí resumindo, deu aquele clima todo porque eu não levo desaforo pra casa e deixei bem claro com os diretores da Tunnel que eles estavam literalmente fadando a casa a um fracasso infeliz, porque o povo que vem aqui ainda gosta de noite.

Você acha que ainda tem gente que gosta dos shows de drag?
Tem gente que gosta. Tem, eu faço Miss Gay em Poços de Caldas (MG), onde acontece um concurso maravilhoso, que é o único lugar que não é feito só por gay. A sociedade inteira vai ver. Isso não é de hoje, não é mérito nosso. Rogéria ficou Rogéria porque fazia espetáculos. Para você te ruma idéia houve um tempo em que tinha um teatro dentro do Ibirapuera e tinha sessão às seis, às oito e às dez da noite. Só com transformista, transexual, travesti. Então quer dizer, onde você põe o pessoal gosta, estão aí os programas de televisão que não me deixam mentir.  Dizem que está defasada, ultrapassada. Então o que é moda então? Começar a balada no fim de semana, na quinta, levantar, fazer uma pool party, depois vai pro after-hours, aio não sei o que mais, chega no domingo estão só o pó da rabiola e gente sendo deixada em porta de hospital, isso ninguém conta sobre a noite. Podem dizer que eu estou sendo muito extremista, muito extrema direita. Eu poderia dar uma entrevista para você e falar ‘oi meu amor, é um prazer ter você aqui no teatro, que bom, que maravilha’. Mas não é isso, eu voltei pro teatro porque a noite foi ficando cada vez mais triste. A noite está infeliz.

Principalmente por causa da droga química.
Por N fatores, droga sempre teve, o povo sempre se colocou. Eu entrei na noite com 27 anos e já tinha isso, mas não era o fio da meada. Você montava uma boate antigamente pra ganhar rios de dinheiro na bebida, você pegava uma garrafa de vodca e vendia três doses e já pagava a garrafa inteira. Hoje me dia ninguém ganha dinheiro na vodca, ganha dinheiro na água. Então… deu no que deu! Não me desliguei totalmente da Tunnel. Saí de lá um dia muito enfurecida porque é uma coisa que está acontecendo em geral. Tínhamos casas em São Paulo como a Sky, Corinto, hoje em dia temos show na Blue Space, na Danger, quando tem porque tá virando meio pop já, tá tocando a música na pista e aparece uma pra bater o cabelo lá. Então a noite ficou distante de mim. Até porque eu sempre fiz teatro, eu faço teatro desde que me conheço pro gente. Em qualquer entrevista que eu dou eu digo que no meu caso foi predestinação. Eu sou de uma cidade muito pequena perto de Poços de Caldas, nasci em Machado, fiquei em Serrania até seis anos, fui pra Poços. Já em Serrania eu brincava de cirquinho, eu queria ir para São Paulo trabalhar na televisão. Então foi predestinação. Comecei no teatro com 10 anos e não parei mais. Então ou eu era artista ou era artista, não tinha outro jeito. E eu vim pra São Paulo com 20 anos, com um colchão de espuma na Viação Cometa, com um sonho na cabeça e sem um tostão no bolso atrás do meu sonho.

Como foi sua chegada em São Paulo? Você se sentia segura logo de cara?
Não sabia nada como fazer. Para você ter idéia fui fazer matrícula na USP para fazer EAD e minha referência de faculdade era a de Poços de Caldas. Meu amigo falou que quando eu visse um prédio muito grande era pra descer porque seria lá. Eu desci em um prédio grande achando que era a USP, eu tava no Jóquei Clube, olha que loucura. Isso há 26 anos. Eu vim com um sonho na cabeça que eu sabia que tinha que dar certo, eu tive amigos que ficaram em Minas pensando que para morar em São Paulo teria que ganhar tanto. Não, eu não.

O que estava sempre na sua cabeça desde quando você chegou aqui?
Eu queria viver de arte. Pra isso eu fui ser camareira do Ronaldo Ciambroni, fui ser bilheteira do teatro Paiol, que era um teatro do Paulo Goulart e da Nicete Bruno, fui trabalhar na administração, fiquei 10 anos no Paiol. Era um teatro que era dirigido pelo ex-marido da Vera Fischer, o Perry Salles, e pela Miriam Mehler. Aí eles se separaram, Perry casou com a Vera Fischer, aí o Paulo e a Nicete arrendaram o teatro. Cheguei em São Paulo já tinha o teatro há algum tempo já. Foram 10 anos de trabalho, na bilheteria, na administração, fui pra técnica, enfim, depois fui pro palco, aí não saí mais. Só que teve uma ruptura nisso daí, eu tinha me lançado então quanto ator, quando eu comecei a fazer show na noite em 1993, e eu fiquei 10 anos fazendo show como drag, em 2003 eu falei ‘vou virar trans’. Eu tive que me lançar como atriz. Aí eu já fazia stand-up em Curitiba, o Risorama, encomendei pro Bruno Mota um texto em que eu fazia seis mulheres, cinco personagens e uma psicóloga, e aí a gente rodou o Brasil.

Para demarcar o território como atriz mesmo, separar da imagem de drag.
Para marcar território como uma figura feminina mesmo, como atriz, não como caricata, não era um show caricato, não era um show de drag. Eu em Curitiba sou mestre de cerimônias há oito anos do Risorama, que foi quem lançou toda essa turma do stand-up que está aí hoje. O Risorama começou pequenininho, em 2003, no outro ano a coisa cresceu de um jeito que hoje são mil pessoas por sessão, duas sessões por noite.

E depois de uma década como drag como você decidiu ser transexual?
Eu sempre quis ser mulher, sempre fui mulherzinha.

Desde pequenininha?
Sempre fui bicha louca, sempre fui. No meu tempo era bicha louca, hoje em dia que vieram inventar o GLBTVUXYWZ que ninguém nem sabe o que é. O pessoal quando pergunta o que é isso eu falo ‘é tudo viado!’, pronto, acabou! O pessoal tem medo da palavra, você não tem que ter medo da palavra, da intenção da palavra. Eu sou madrinha de um guia que era GLBT, aí virou LGBT porque as lésbicas reclamaram em Brasília que elas estavam sendo discriminadas por estar na segunda letra da sigla. Eu posso? Isso é falta do que? De rola! Só pode ser! Fala a verdade, literalmente. A pessoa que perde tempo com uma coisa dessas, ah, por favor. Cidadania não se mede assim, repito, cidadania não se mede assim. Cidadania se mede nos seus atos, na sua atitude, no seu dia-a-dia. Agora uma nomeclatura? Eu sou o que então? Eu sou um OSNI, objeto sexual não-identificado!

Você se encaixa em algum rótulo ou você faz questão de não se encaixar?
As pessoas que rotulam a gente. Eu me chamo artista, eu sou artista. Eu sou a Nany artista. Para você ter uma idéia, se eu fosse somente a Nany personagem eu deixaria de ser a Nany quando não estou de Nany e faria tudo que o pessoal acha que a Nany é: a porra-louca, a do kama sutra, a que bebe muito, a que fuma muito, que se droga todo dia. Porque a Nany vende isso, quem vê a Nany acha que ela é uma porra-louca. Mas não, eu tenho meus conceitos, meus preconceitos, minhas limitações, sou chata, sou careta, sou conceitual, sou padronizada, eu sou assim. Não sou um exemplo de virtude, mas também não sou essa doida aí que faz a amiga íntima da Rê Bordosa, não sou. As pessoas enxergam em você o que elas querem ver. Agora uma coisa que mudou muito esse meu patamar foi o meu currículo. Eu falo que o público gay tem memória curta. Porque eu já trabalhei com o Goulart de Andrade, Amaury Jr., Goulart de novo, Hebe Camargo, A Praça é Nossa, A Fazenda, to de novo no SBT. Eu não tenho empresário que me ofereça, as pessoas que me ligam oferecendo trabalho. Fiz rádio cinco anos, escrevi em revistas 10 anos. Então todo mundo fala: ah, ela se sente. Não, bem, eu tenho um currículo. Porque se fosse só como trans têm muitas aí que fazem de graça. Eu sou contratada como atriz, contratada e paga, e bem paga, que eu faço questão de frisar isso – porque as pessoas têm que saber que tudo na vida tem hierarquia.

Porque se você é bem paga é porque já construiu uma carreira para isso.
Sim, hoje eu posso chegar e pedir tanto. Pedir o valor que eu quero. Como me lancei como drag eu virei trans porque eu sempre quis ser menina, eu sempre me senti mulher, sempre. Sofri muito preconceito quando era criança. Quando eu mudei de cidade sofri muito preconceito. Mas eu tive muito mais preconceito dentro do próprio meio gay. Quando qualquer cara bonito se interessava por mim, sempre tinha uma bicha que gongava. Quando eu virei trans, coloquei peito, aí as pessoas me gongavam porque eu tinha virado trans. Quer dizer, agora tá leprosa! Acabou. Quando eu comecei na noite, a drag que queria ser drag tinha que chegar de hominho, como o Dimmy fez várias vezes, de bonezinho, colocar três ou quatro meias-calça, mais uma de redinha em cima pra subir no palco e fazer a gostosa. Desmontava tudo, passava um óleo na cara, tirava a maquiagem com toalha e saía de gayzinha. Eu não, eu cheguei de perna depilada, de peruca Chanel, foi um escândalo na Gent’s quando eu cheguei assim. Todo mundo falava ‘ela tá montada!’. Quando eu coloquei peito então foi um Deus nos acuda, um pega pra capar. Porque agora a Nany não era mais era mais drag, aí começa um fala-fala de que eu fui mandada embora da Hebe porque eu virei trans, mentira, eu fui embora porque muda-se as cadeiras mesmo. Pelo contrário, a Hebe me apresentou para a sociedade brasileira como tal. O fato é que o mercado de trabalho nunca me foi fechado pela minha condição de trans. Eu só me relaciono com homens héteros, eu nunca namorei um cara com quem eu tenha que fazer o papel do homem, pelo contrário. Não rola, não tem química. Eu sou a parte feminina sempre. Eu sou mulher e sou bonita. As pessoas têm medo hoje em dia de se posicionar, todo mundo vive em cima do muro, sabe? Todo mundo tem que fazer a linha em função do tal do politicamente correto, você não pode chamar o feio de feio, tem que chamar de que? De exótico?

E como você faz para fazer as piadas então?
Eu faço a piada! Porque o importante não é o que você fala, mas como você fala. Até o palavrão. Eu falo sempre como sílaba tônica de uma expressão, ele colore melhor. Eu falo isso no show. Por exemplo: veio um carro da direita e um da esquerda e bateu, embucetou tudo. Quando você coloca buceta no meio da história, querido, é foda. Garantida! As pessoas tem medo de falar que fulano é feio, gordo. Meu amor eu fui chamada de pintosa a vida inteira e não morri. A vida inteira. Eu morava em uma kit net com dois amigos, tinha 22 anos, e não tinha trepado ainda. Eu falava que minha primeira vez ia ser assim e assado, meus amigos falavam que isso não acontecia nem com mulher. Eu sonhava, era mulherzinha, bem romântica. Mas aí depois dos 30 quando você começa a dar você toma gosto e descobre que sexo é química e amor é matemática.

E sua primeira vez foi como você esperava? Você tem boas lembranças?
Foi. Nossa, eu me senti a Juliana da novela ‘Terra Nostra’ no meio dos cafezais. Em Minas Gerais, do jeito que eu queria, com o bofe que eu sonhava. Eu tenho uma cabeça muito fértil, eu visualizo a coisa e ela vem pra mim. O meu último namorado eu vi de relance em uma situação que eu cheguei para pegar uma amiga em um lugar e eu o vi. Tenho costume de dizer que você chama do Universo. Eu vi a boca dele, o nariz. Estava eu andando na rua e ele veio pra minha mão, eu pedi pro Universo.

E você está namorando, enrolada, solteira?
To namorando, to casadíssima, morando juntos, cuidando, arrumando banheiro, só não tiro pentelho de sabonete porque eu o ensinei a fazer a tosa e a higiene. Mas arrumo toalha, faço tudo.

E você pensa em algum dia casar no papel, tudo certinho?
Não, não. Acho que casamento é de alma mesmo, entendeu? Nem pela questão do direito, nunca contei com homem pra nada, eles também não contam muito comigo. Eu não sou fácil, sou muito hiperativa, eu tenho noção disso. Eu vivo pro trabalho, eu amo o que eu faço. Eu deito às cinco e levanto à sete já plugada. É difícil então. E tem outra coisa, tem a Nany People e a Nany. A Nany People é de todo mundo, aquela que sai. A Nany é aquela que fica em casa.

Nany, a People, surgiu como?
Eu era muito fã da Nani Venâncio, ela era linda. Todas faziam as pernósticas e queriam ser Linda Evangelista, eu não. Isso era na época da Cortino, uma vez por mês tinha uma festa especial. Parava o lado do Shopping Ibirapuera, aquela rua do lado, parava. Ia fauna, flora e primavera, ia tudo e mais um pouco, iam todos. E era uma festa. Nós éramos mais ingênuos, muito ingênuos. Tanto é que toda essa minha geração foi dizimada pelo HIV. AIDS explodindo, amigos morrendo com HIV, tomando Novalgina. Foi punk. É uma heresia falar isso, mas foi gozoso e foi doloroso o processo. Perdi bastante gente, virei voluntária no Hospital Emílio Ribas em função de levar muitos amigos para lá. Aí eu cheguei um dia e fui internar um amigo e não tinha nem cadeira de rodas. Eu falei ‘tem que fazer alguma coisa’. Aí eu fiz uma noite na Tunnel para comprar cadeiras de rodas. Conseguimos 20 cadeiras de rodas e com o dinheiro da festa, que todas as bonitas da noite me ajudaram, montamos a sala voluntariado com móvel, mobiliário, computador, com tudo.

Você acha que esse tipo de atitude poderia ser mais comum hoje em dia?
É, poderia, mas a gente tem um grande problema, a máquina da engrenagem do Estado nisso. Porque quando você vai fazer uma doação dessa você não sabe depois. Às vezes você até faz uma festa, mas eles desviam a verba. Você pega a verba, compra a coisa e não consegue doar, para doar essas cadeiras tinha que fazer testamento de cada uma delas, dizer por que eu estava doando, muita burocracia. O povo faz, mas a máquina do Estado trava, nem sempre é interessante para o poder.

E você tem pretensões políticas?
Deus me livre guarde, eu ia ser morta no primeiro mês. Porque eu ia jogar merda no ventilador, já pensou? O partido ia falar ‘preciso que você concorde com isso’. Ah, capaz! Então vem me fazer concordar, caralho! Não dou conta, meu negócio é palco, e pau também. você tem que ter consciência de tudo isso para não ser bucha de canhão, querido. Para não servir de tapete para os outros.

A gente tem nesse ano já quase 100 candidaturas de pessoas LGBT. Você acha que conseguimos alguma coisa nas Eleições?
Gay não vota em gay. Porque as pessoas são dissimuladas, as pessoas têm preconceito com elas mesmas. As pessoas falam ‘ah Nany, minha mãe te adora’, mas tem vergonha dew falar que gosta de mim porque vai ter que denunciar a condição dela. Como se isso fosse um indicativo da sexualidade. Acha que só porque gosta é viado também. O gay não se expõe. Jean Wyllys não conseguiu nada ainda. Eu faço política no dia-a-dia. Eu faço política quando eu dou um discurso desse pra você. Eu poderia bem fazer a comercial com você, a Rapunzel, a Cinderela. Não. Eu acho que na vida tem que ser divertido, tem que ser gostoso e tem que 3estar lubrificado, pode até machucar um pouquinho, mas tem que escorregar, querido, tem que fluir, senão…

E o que te deixa de mau humor?
Ah, quando eu vejo mentira, eu perco o rebolado. Eu esqueço todo o estrogênio que eu tomei e viro Godzilla. Quando vejo mentira, má intenção, mal caráter, mas na hora, eu sou a primeira a sair cortando cabeça, se precisar faço um arakiri. E as pessoas sabem que eu vou chiar. Eu sou assim, quando eu gosto eu goooosto, mas se eu não gosto, meu amor, ah não.

Você não acorda de mau humor, não precisa de um tempinho pra despertar?
Não, eu acordo feliz, eu abro o olho e falo ‘bom dia, dia, bom dia, florzinha, bom dia, passarinho, bom dia peixinho’, eles falam ‘bom dia, viado!’. Por mais que esteja feia a coisa eu sempre acho que o melhor está por vir, acho que no final tudo se acerta.

E você tem algum medo?
Tenho. Tenho medo de ficar inativa, sem saúde, doença é terrível, morro de medo disso. Não que eu tenha medo, mas eu vejo as pessoas que eu quis tanto bem, tias, tias-avós, perderam o viço e eram mulheres fortes, dinâmicas, e o tempo faz isso.

Pensa nisso, se prepara para a velhice?
Não, eu penso em me divertir. Até porque quando você faz 40 anos você descobre que metade da ampulheta já foi pro espaço. Daqui pra frente ou você vai se divertir ou vai juntar médico para trocar dica na reunião de amigas. ‘Conheci um ortopedista ótimo, seu joelho não vai doer mais’. E tem outra coisa, eu vou pela contramão, não namoro ninguém da minha idade. Namoro sempre garotão, eu tenho essa coisa, gosto de gente jovem. Embora eu tenha uma vida careta, eu gosto de gente jovem, a juventude me atrai, o desencanamento da juventude me atrai, me divirto com isso. Quando eu estava sendo jovem eu estava tão preocupada em sobreviver que eu não tive tempo de me divertir, então eu me divirto agora. Por exemplo, eu posso sair com quem eu gosto, sentar em um restaurante e olhar o lado esquerdo sem me preocupar com o direito, olho a comida sem olhar o preço. Eu posso me proporcionar mais coisas. Eu vivi em kit net com três, quatro amigos que ia com as moedas contadas fazer compra. Hoje eu posso me dar ao direito de fazer uma cesta básica e comprar o que eu quero, quantas bolachas recheadas eu quero. Se você não dá valor a essas coisas vai dar valor a que? Eu aprendi em casa que quem usa sem lei morre sem honra. Não sou doida, não sou tipo ‘Mulheres Ricas’ não.

Nany tem um sonho de consumo?
Tenho. Eu penso em ter uma casa em Poços de Caldas e um apartamento no Rio de Janeiro, em São Paulo eu já tenho.

E sem ser algo material?
Um programa de televisão. Vou dar uma de miss: a paz mundial! Quer que eu responda isso? Eu tenho mais é uma expectativa. De que as pessoas consigam amenizar mais a luta do câncer e da AIDS. O câncer ainda mata mais do que a AIDS. Um sonho seria que eles viabilizassem os antídotos para isso mais rápido porque ainda morre muita gente.

Uma última pergunta antes de você entrar então, eu vi que você tem uma tatuagem que é um salmo. Você é cristã?
Sou cristã, católica apostólica romana, rezadeira. Não digo que sou praticante porque não gosto muito de missa, mas adoro uma igreja. Eu chego a qualquer cidade e pergunto onde fica a catedral. Eu tenho que ir à matriz. Sou devotíssima de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, sou rezadeira, n a minha casa tem um oratório, uma Nossa Senhora de Fátima, tudo que eu peço pra ela eu alcanço. Se eu tenho um evento e tem trânsito eu peço ‘Maria passa na frente’, ou o povo abre de medo ou abre de susto!

Fonte: http://revistajunior.virgula.uol.com.br

 

 

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