Deuses homossexuais, androfílicos, bissexuais e trans

Por: Walter Silva
É claro que homossexuais e outras minorias não precisam da aprovação ou justificação religiosa para existir,    reivindicar tratamento igualitário ou dignidade; os direitos humanos das pessoas LGBT são universais e a defesa das demandas civis da comunidade gay, lésbica, bissexual e trans* deve forçosamente se sobrepor a questões religiosas.
Contudo, a mitologia das pessoas LGBT é patrimônio da comunidade LGBT, e o resgate da tradição mística e religiosa autêntica das pessoas “estranhas” (queers) para me expressar no jargão dos pós-modernos, pode servir de alternativa para aqueles que se ressentem do vazio ontológico proporcionado pela imposição da heteronormatividade. Não há necessidade de se inventar deuses Gays na atualidade ou dispor de tradições fake oferecidas por oportunistas em prateleiras esotéricas. Nem o deus “azul” da Wicca, nem a Teologia Queer das feministas radicais. Que falem os deuses antigos por si mesmos.
A seguir uma compilação de algumas divindades tradicionalmente e intimamente relacionadas a pessoas LGBT.
O príncipe das flores 
Sentado de pernas cruzadas em um pedestal de pedra, o corpo recoberto de flores e cogumelos alucinógenos, uma borboleta tatuada no rosto, a face em êxtase voltada para o alto, a boca entreaberta, o deus asteca Xochipilli suspira deliciado, completamente absorvido pelo “sonho florido” (temicxoch).
Segundo informa David Greenberg em “The Construction of Homosexuality”, Xochipilli era o mestre das flores, da beleza, da música, da dança, da arte, do bem estar físico, dos prazeres sensuais e fertilidade e padroeiro dos homossexuais e prostitutos masculinos.
Era, portanto, um deus gay, no mais amplo sentido do termo.
Correspondendo parcialmente ao deus Maia do milho, uma divindade às vezes representada sob forma masculina, às vezes sob aspecto feminino, Xochipilli, cujo nome significa “Príncipe das flores”, governou uma era caracterizada pela lassidão, alegria, festejos, sexo, e desinteresse por atividades viris tais como armas e guerra.
O deus coelho 
Ele era um homem mortal que morreu tragicamente por causa de um amor proibido.
De acordo com a descrição extraída do Zi Bu Yu (coletânea de histórias sobrenaturais) do erudito e poeta da dinastia Qing, Yuan Mei, foi um crime homofóbico; Hu Tian Bao era seu nome, e ele um oficial que se apaixonou por um jovem e bonito inspetor imperial da província de Fujian. Por causa do elevado estatus social do rapaz, Hu teve medo de revelar seus sentimentos.
Apesar disso, Hu Tian Bao não resistiu ao charme do inspetor e foi pego espionando-o na casa de banhos. O povo da província de Fujian, tradicionalmente, respeitava o amor do mesmo sexo, e casamentos de homem com homem foram admitidos; no período da dinastia Qing, porém, funcionários do Confucionismo se esforçaram para criminalizar atos homossexuais e desencorajar cultos considerados “licenciosos” ou “imorais”.
Nessa época de intolerância, diz a lenda que Hu Tian Bao foi severamente espancado até a morte, ao confessar seu amor pelo inspetor imperial.
Desde então ele foi reverenciado em sua própria terra natal por devotos homossexuais como um deus patrono do amor do mesmo sexo; ergueram um templo e diante do ídolo de gesso, representado sob a forma de um casal de homens abraçados, queimaram incensos e ofereceram orações, esfregando em sua boca uma mistura de tripa de porco com açúcar.
Diz-nos o professor Michael Szonyi de Harvard que a existência histórica do culto do deus coelho é bem documentada em registros oficiais da era Qing (século 18) sendo que a principal evidência da seita aparece em editais de funcionários imperiais que tentaram reprimir a prática (Szonyi, Michael. “The Cult ofHu Tianbao and the Eighteenth-Century Discourse of Homosexuality)
O deus coelho (Tur Er Chen) não é uma divindade coelho, apesar do nome; o termo foi usado pejorativamente na China Qing para qualificar homossexuais. Atualmente o culto do deus gay foi revivido na cidade de Yonghe em Taiwan e Hu Tian Bao voltou a ouvir e abençoar as preces de amor dos seus devotos.
Apolo carneiro 
Na colônia espartana da ilha grega de Thera (Santorini) floresceu o culto do deus carneiro, senhor do belo, da poesia e da fertilidade masculina. Inscrições esculpidas na rocha próxima a um terraço do templo de Apolo Karneios revelam que a divindade era homenageada com danças e rituais que envolviam relações homossexuais, de acordo com o seu descobridor, Johann Friedrich Hiller von Gärtringen, e o doutor Edward Brongersma, mais recentemente (ver artigo “The Thera Inscriptions Ritual or Slander?” em Journal of Homosexuality).
A cerimônia contava com acrobacias, jogos e rapazes dançando em êxtase, completamente nus; no auge do festival, durante a lua cheia, em uma praça na borda de um penhasco, assistidos pelos cidadãos do lugar, os efebos cantaram hinos e fizeram sexo, invocando o nome de Apolo.
As inscrições na rocha são bastante explícitas e despudoradas ( Ver artigo “Early Greek Men and Women Record Homosex and Love in Rock and Pottery”).
Em determinado trecho está escrito:
“Krimon, o melhor na dança Qonialoi, derreteu o coração de Símias”
O Qonialoi era a “dança do sátiro” e o rapaz pelado dançava com o membro erecto.
Não devia ser muito fácil dançar com o pau duro; Krimon certamente teve muitos admiradores.
Com efeito, em outra inscrição foi dito:
“Aqui Krimon fodeu Amotion”
Logo mais adiante Krimon troca de posição, demonstrando sua versatilidade:
“Em nome do deus de Delfos (Apolo) neste local Krimon foi fodido pelo filho de Bathukles”
Essas inscrições apresentam uma perspectiva pouco ortodoxa da homossexualidade grega, desmistificando o mito da “exclusiva pederastia” (relação intergeracional) ao sugerir que os jovens efebos transavam entre si, inclusive alternando papéis sexuais.
Em conformidade com as inscrições da ilha de Thera, comprova-se com maior ênfase que Apolo é uma deidade fortemente relacionada aos homossexuais; a mitologia clássica atribui-lhe inúmeros amantes do sexo masculino, entre eles Jacinto de Tróia, Ciparissos, Himenáios, Heleno, Leucatas, Carnos, Silvano e Branchos, herói de Mileto que aprendeu com o deus o dom da adivinhação.
A deusa trans* da compaixão 
“Se precisarem de um rapaz ou de uma rapariga para serem salvos, imediatamente ele se torna um rapaz ou uma rapariga e prega a Lei para eles” (Sutra de lótus)
Avalokitesvara, aquele que escuta as súplicas do mundo, é caracterizado pela fluidez de gênero, sendo representado tanto sob a forma masculina, de bigodes e armas, quanto sob a forma de uma bela e lânguida mulher cingindo um vestido vaporoso.
O professor, doutor e teólogo Patrick Cheng afirma que o culto de Kuan Yin (o aspecto chinês e feminino do Bodhisattva) tem sido abraçado por pessoas LGBT ao longo dos séculos na Ásia como um espelho que reflete essa fluidez de gênero e orientação sexual (Kuan Yin: Mirror of the Queer Asian Christ).
Nas dinastias Ming e Ching os atores que representavam papéis femininos com desenvoltura foram descritos positivamente como “tão bonitos quanto Kuan Yin”.
O professor Cheng observa que em contraste com a “erotofobia” do cristianismo tradicional, Kuan Yin toma a forma de uma deusa que é radical em termos de corporalidade e sexualidade, engajando-se em atividades sexuais para cumprir a missão de salvar os seres vivos.
Uma tradição rica de histórias medievais japonesas (ver “Chigo Monogatari: Love Stories or Buddhist Sermons?”) relata como o Bodhisattva assume repetidamente a aparência de um rapaz bonito (chigo) para se envolver em relações sexuais com monges mais velhos, no intuito de levá-los à iluminação. A moral dessas histórias não estava na condenação dos atos homossexuais, mas sim no despertar místico como resultado de tais relações.
No “Chigo Kannon Engi” (O conto sobre Kannon menino) o Bodhisattva surge como um garoto de 14 anos no templo dedicado a Kannon e seduz um monge que fazia sua peregrinação mensal.
Os dois vivem juntos por três anos e de repente o rapazola morre, deixando o monge profundamente infeliz e dominado pela tristeza. Posteriormente o monge reflete sobre a impermanência dos fenômenos (inclusive do amor) e alcança a iluminação. Ele abre a sepultura do jovem após 35 dias e se depara com Kannon em sua verdadeira forma, que o leva para o paraíso.
Chun-Fang Yu menciona um homem que pintou uma imagem do seu amante adolescente imitando a pose de Kannon no século 17 como um presente de namoro gay (Kuan-yin: The Chinese Transformation of Avalokitesvara).
A caçadora lésbica
 Ficheiro:Diane de Versailles Leochares 2.jpg
Ela conseguiu obter do pai a promessa que de que jamais seria forçada a se casar com homem algum.
Diana viveu na floresta, cercada de virgens e belas ninfas; uma das suas favoritas era Calipso.
O poeta romano Ovídio conta em “Metamorfoses” que Zeus cobiçava a ninfa Calipso e disfarçando-se em Diana, seduziu a ninfa, beijando-a “não de forma modesta”.
Calipso retribuiu o calor da paixão até perceber que o corpo que abraçava era masculino. Resistindo, foi violada e engravidou.
Diana, a deusa lésbica da lua e da caça preferia naturalmente, a companhia das mulheres; foi ela que salvou Britomaris de morrer afogada, Presenteou a princesa Cyrenea com um par de cães mágicos, concedeu a Daphne o dom da pontaria certeira e resgatou Atalanta, abandonada ainda bebê pelo pai que queria ter um filho.
O festival romano da Nemoralia homenageava a deusa virgem; centenas de mulheres carregando tochas e velas atravessavam a floresta, acompanhadas de cães de caça e ornamentadas com coroas de flores.
Fala Ovídio:
“No vale Arriciano
Um lago cercado de escuras florestas
É considerado sagrado por uma religião dos tempos antigos
Muitas vezes a mulher cuja oração Diana atendeu
Uma coroa de flores cingindo a cabeça
Vem de Roma carregando uma tocha acesa”
Aravan o marido de Krishna, patrono das mulheres trans*
Aravan se ofereceu em sacrifício, mas tinha um último desejo a ser atendido.
Antes de morrer ele queria experimentar o amor.
Conforme a versão Tamil do Mahabharata, considerando que nenhum pai deixaria sua filha se casar com um homem condenado à morte e movido pela compaixão, o deus Krishna tomou a forma de uma linda mulher e casou-se com Aravan. Krishna ainda permaneceu sob a forma feminina durante o tempo que uma mulher deve cumprir o luto pelo seu marido.
O casamento e morte de Aravan são revividos anualmente durante uma cerimônia na qual as Hijras (membros do terceiro gênero) assumem o papel de Krishna e “casam-se” com Aravan em um ritual coletivo; o festival termina com o enterro simbólico do deus enquanto as Hijras choram e pranteiam-no em estilo Tamil, batendo no peito, quebrando as pulseiras e se vestindo de branco.
 Fonte:
 http://www.nossostons.com
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