Sem culpa nem estrelas, com amor

O mais interessante de “Com Amor, Simon”, em pré-estreia na capital, é que a maioria das críticas que vêm à mente durante a projeção acabam sendo, de certa forma, seus maiores méritos. O filme segue a formulinha de comédias românticas colegiais, tem aquele visual pasteurizado das produções do gênero feitas em estúdio, todos os personagens são bonitos, classe média, vivem em casas que só existem no cinema, e todos os conflitos são solucionados de forma rápida e com um laço de fita rosa no final.

A grande subversão é que o filme do diretor Greg Berlanti (de séries como “Dawson’s Creek” e “Flash”) usa todos esses clichês para contar uma história com um protagonista gay. O longa não quer ter o mesmo requinte visual e narrativo de um “Me Chame pelo seu Nome” porque seu público-alvo é outro: adolescentes que não iriam ver a obra de Luca Guadagnino, ou a achariam lenta e cult. O diretor quer que “Com Amor, Simon” tenha o mesmo feeling de outros tantos filmes adolescentes de sua geração. E isso pode ser encarado como medíocre, ou como uma ousada tentativa de normalização da experiência queer para o público mainstream das salas de shopping.

O roteiro acompanha o Simon (Nick Robinson) do título, garoto bonito e popular de um colégio do interior que ainda não saiu do armário. Quando um colega faz um post anônimo no Tumblr da escola revelando ser gay, o protagonista começa uma correspondência por e-mail com o autor – que se torna romântica, mesmo que os dois não saibam quem o outro é. O que ganha contornos problemáticos quando Martin (Logan Miller), loser apatowniano do colégio, descobre e chantageia Simon em troca de um encontro com sua amiga Abby (Alexandra Shipp).

“Com Amor, Simon” se equilibra entre as tentativas do protagonista de lidar com as implicações morais dessa chantagem e uma espécie de “whodunit”, em que ele busca descobrir a identidade de seu amor. O resultado não chega a ter a naturalidade charmosa de um John Hughes, mas também não tem a artificialidade melosa e inverossímil de um “A Culpa É das Estrelas”.

Adaptando o romance infantojuvenil de Becky Albertalli, Elizabeth Berger e Isaac Aptaker (de “This Is Us”) incorrem em algumas cenas e diálogos afetados típicos de como adultos acham que adolescentes falam. Mas Berlanti contorna isso com um bom e carismático elenco jovem. E, acima de tudo, o roteiro capta a erupção vulcânica que é sair do armário, como um evento cujo contexto e desdobramentos vão definir não só a identidade sexual, mas a bússola moral, quem você é e qual seu lugar no mundo.

A cena do protagonista com a mãe Emily (Jennifer Garner) não chega aos pés do momento entre Elio e seu pai em “Me Chame”, mas retrata um momento difícil de uma forma tão positiva que pode salvar muitas vidas em risco. E esse é o poder de “Com Amor, Simon”: representação. Por anos, jovens do mundo todo espelharam seus comportamentos e suas opiniões em longas adolescentes norte-americanos e, pela primeira vez, gays não vão precisar se projetar no protagonista hétero, ou num coadjuvante/alívio cômico gay. Eles vão perceber que também têm o direito de ocupar o centro da tela. Nesse sentido, “Com Amor, Simon” tem para o público o mesmo efeito que a correspondência virtual tem para seus protagonistas – mostrar que eles não estão sozinhos.

Se seu coração não ficar nem um pouquinho apertado na cena da roda gigante, você está morto por dentro. E mesmo superficialmente, o longa admite o privilégio de um protagonista branco, bonito e popular, ao mostrar o bullying do colega negro, assumido e afeminado de Simon. Se “Moonlight” era Frank Ocean, e “Me Chame”, Rufus Wainwright, “Simon” é Sam Smith. Não se trata de ser melhor ou pior, mas de entender que cada um tem seu lugar e propósito, e representa um novo passo em direção ao direito universal de amar e de expressar esse amor como arte.

fonte: otempo

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