Criança Transexual: menino ou menina?

Para entender bem o que significa ser um homem ou uma mulher transexual, é importante saber o que cada um desses termos significa. Uma pessoa pode ser cisgênero ou transgênero. Cisgênero é quem se identifica com o gênero correspondente ao sexo biológico, ou seja, nasceu com vagina é uma menina, nasceu com pênis é um menino. É o que todo mundo considera regra. Transgênero é a pessoa que contesta essa regra, que não tem seu gênero definido pelo sexo biológico. Já a pessoa transexual se identifica com o gênero oposto ao sexo que nasce (é bom lembrar que todo transexual é transgênero, mas nem todo transgênero é transexual).

Quando uma menina nasce, o enxoval é todo rosa, ela terá dezenas de vestidos e os primeiros brinquedos com certeza serão bonecas. Se o bebê é um menino, o mundo fica todo pintado de azul. Carrinhos, robôs e bolas começam a fazer parte do seu cotidiano. Essas crianças começam a ouvir desde muito novas frases de ordem como: “menina, senta direito, você já é uma mocinha”, “menino, para de chorar, menino não chora!”, “olha que menininha linda, tão delicada”, “esse menino vai ser um grande conquistador”.

As crianças vão crescendo ouvindo e acreditando nessas máximas e outros elementos vão sendo colocados no universo delas, até estar bem claro na cabeça de todo mundo o que são coisas de mulher e coisas de homem. Mesmo as crianças que não são transexuais são influenciadas negativamente por esses estereótipos desnecessários. Cores são só cores. Brincadeiras e fantasias são extremamente importantes para que todas as crianças vivenciem diferentes papéis e possam se desenvolver psicológica, física e socialmente.

Sabemos que o apoio da família é essencial em qualquer situação, mas, na hora de assumir a transexualidade, se sentir acolhido pelas pessoas mais próximas é muito importante. 

Os familiares são as primeiras pessoas com quem a criança vai estabelecer laços e criar vínculos. Se dentro de casa a criança não recebe apoio, o sentimento de rejeição vai crescer cada dia mais. As reações podem ser várias: ela fica muito agressiva, introvertida, não consegue fazer amigos nem se expressar direito, vai mal na escola e deixa de gostar de si mesma. E isso não vai só prejudicar a infância, mas também a adolescência e a idade adulta. Se já é difícil passar pelo processo de assumir um gênero diferente daquele que as pessoas esperam, imagina fazer isso travando uma batalha contra a própria família? Nessa hora, o colo da mãe, o conselho do pai e os abraços dos irmãos fazem todo o bem do mundo.

As famílias, normalmente, têm dificuldade de perceber o que está acontecendo e confundem a identidade de gênero com a orientação sexual, outro preconceito que precisa ser combatido. Os pais acreditam que a transexualidade é, na verdade, uma manifestação da homossexualidade, mas de forma exagerada. Mas quando há apoio e compreensão da família, a criança se sente mais segura e cria mais autonomia para lidar com discriminações.

Para a psicoterapeuta de adolescentes e adultos Cecília Zylberstajn, a criança começa a perceber o próprio gênero quando ela passa a dizer que é do sexo oposto ao de nascimento não como uma brincadeira, nem como fantasia, mas por causa da identificação. É compreensível que haja um choque inicial para os pais. Nessa hora, os pais ficam assustados e rejeitam a ideia, muitas vezes porque estavam há muito tempo identificando o filho por meio de um gênero, desde o ultrassom.

Um estudo recente realizado pela Universidade de Washington, nos Estados Unidos, e publicado pela revista Psychological Science concluiu que as crianças transgênero começam a reivindicar um gênero diferente ao mesmo tempo que as crianças cisgênero se identificam com o gênero correspondente ao sexo biológico, por volta dos 2 anos. É como se a criança olhasse no espelho e não se reconhecesse. É uma expectativa constante de que ela vá acordar no corpo certo.

Muitas vezes, nós tendemos a achar que, o que é brincadeira para nós, também não é sério para nossos filhos. A diferença é que a criança não estará fantasiando que é um menino ou uma menina, ela realmente acredita que é. Se os outros a aceitam assim, ela sente liberdade para expressar sua identidade. É extremamente angustiante quando ela não tem essa aceitação. O uso do nome social, ou seja, do nome pelo qual a criança gosta de ser chamada, também é importante. Tem a função de amenizar a solidão que a criança vai sentir no processo de aceitação.

Chamar a criança pelo nome que ela escolhe é sinal de respeito pela identidade dela. Vai dar legitimidade pública a uma vivência interna. Vai fortalecer a criança. Afinal, não custa nada para nós respeitarmos esse desejo, seja em casa, entre amigos ou na escola. Pode ser um pouco demorado para que isso se torne natural, mas vale o esforço. A mesma coisa acontece para os apelidos.

Algumas vezes, os pais ou não enxergam ou se negam a ver o que está acontecendo com seus filhos, algumas até mesmo por motivo religioso e a escola pode desempenhar um papel importante. 

A escola não chama os pais para dizer com todas as letras que as crianças são transgênero, mas marcam reuniões para contar o que os professores e coordenadores observam. Na sala de aula, os professores interferem apenas se acontece alguma briga, deboche ou discussão. Para ninguém sair magoado, eles buscam sempre mostrar que as diferenças são muito positivas para a convivência entre amigos. É aquele velho ditado: o que seria do azul se todo mundo gostasse de vermelho?

Quando existe uma criança transgênero na família, é hora de procurar ajuda para lidar com esse momento delicado e estabelecer um canal aberto de comunicação entre a família. Por isso, a ajuda de profissionais como pedagogos e psicólogos é muito bem-vinda. Como qualquer outra pessoa, as pessoas trans e suas famílias procuram um psicólogo quando estão em crise sobre seu lugar no mundo. Existe aí uma questão que vai muito além do gênero. Ou seja, nossos filhos não vão e não devem se resumir apenas em ser transgênero, e o psicólogo vai ajudar a reajustar o dia a dia de todo mundo. Nossas escolhas trazem mudanças e rompimentos, e isso pode ser muito doloroso.

Na hora de procurar ajuda, é muito importante que o especialista entenda sobre identidades transexuais, para que o caso não seja tratado como uma doença, o que de fato não é. O profissional também vai ajudar a criança a lidar com os preconceitos que ela vai enfrentar em vários lugares. A busca por alguém que esteja bastante envolvido com esse tema vai abrir caminho para manter a família unida ao lado da criança.

Via: Rev. Pais&Filhos

 
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