LGBT: Preconceito entre os muros da escola

Antes dos números que dão corpo a um levantamento sobre as experiências de 1.016 estudantes LGBTs em escolas brasileiras, surgem as memórias. A Pesquisa Nacional sobre o Ambiente Educacional no Brasil 2016 é dedicada a Alexandre, 14 anos; Jamey, 14 anos; Cleides, professor universitário; Sergio, 16 anos; Roliver, 12 anos; Luana, 14 anos; Elisabeth, 14 anos. Gays, transexual, lésbica, pessoas mortas pela intolerância entre 2010 e 2016.

É possível ler a pesquisa de dois modos: pelas estatísticas ou pelas histórias por trás delas. Os dois causam espanto e preocupação. “Sou gay, acadêmico, pós-doutor em Educação e três dados me deixaram bastante preocupados: 73% dos respondentes sofrem bullying, assédio moral na escola através de palavras de baixo calão”, aponta Toni Reis, 52 anos, coordenador da pesquisa. “A outra questão é que 36% sofrem violência física. E o outro dado é que 60% se sentem inseguros, não se sente confortável, acolhido (na escola). Esses três dados, para mim, como estudioso, ativista e educador me deixaram muito apreensivo. Não achávamos que era tão alto”, completa.

Ao longo das mais de 80 páginas do estudo, alguns depoimentos ligam os dados a sentimentos. “Não gosto mais de ir pra escola porque é lá que tenho minhas piores lembranças. Ano passado me zuaram só porque eu gostava de uma professora. Eles me chamavam de sapatão, me xingavam e eu me sentia infeliz”, escreve uma estudante lésbica de 14 anos, do Ceará. Tento desmentir minha sexualidade porque se já sofro bullying sem assumir, imagina se assumisse. Minha mãe tenta me fazer ir pra escola, mas não adianta. Penso em até suicídio, mas ela tenta me dar forças… Meu conceito sobre a vida é que ela não tem valor quando você é alvo de bullying, a infelicidade é sua vida”, une.

Medo

O relatório se divulga como a primeira pesquisa nacional virtual realizada com adolescentes e jovens lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. As estatísticas, que serão medidas a cada dois anos, querem servir de base para “políticas públicas que possibilitem transformar as instituições educacionais em ambientes mais seguros e acolhedores para estudantes LGBT”.

Sob pena de a escola não cumprir sua função essencial, sublinha Toni Reis: desenvolver o ser humano, promover a cidadania e preparar para o trabalho. “As pessoas não se sentem bem na escola. Tem baixo rendimento, pode evadir-se, torna-se uma pessoa insegura”, ele significa os números que demonstram haver duas vezes mais probabilidade de faltar à escola os estudantes que sofreram níveis mais elevados de agressão à orientação sexual. “Não é uma questão do Ceará, Paraná, São Paulo. É generalizado”, atenta Reis, também secretário da Educação da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), que lançou a pesquisa em maio deste ano.

E não são apenas números. Um estudante trans, de São Paulo, espelha aos 16 anos: “Me descobri no primeiro semestre como lésbica, e poucos meses depois como homem trans, e tive minha perspectiva de vida completamente alterada… Eu, um jovem de classe média alta, branco, morando em um bairro rico, levei um choque de realidade ao perceber que eu tinha muitos privilégios e que minha expressão de gênero tirou quase todos eles de mim. Esse ano, tudo mudou para mim, eu tenho medo de andar na rua sozinho, de me assumir para meus pais, de nunca ser capaz de concluir minha transição, de não ser aceito no mercado de trabalho. Eu tenho medo de tudo e de todos”.

Cenário

73% do total de estudantes LGBT disseram ter sido agredidos verbalmente por causa de sua orientação sexual;

27% contam ter sofrido agressão física por causa de sua orientação sexual;

36% avaliaram como “ineficaz” a resposta dos profissionais da escola para impedir as agressões;

39% revelaram que nenhum familiar procurou a escola para falar sobre a violência sofrida. (Fonte: Pesquisa Nacional sobre o Ambiente Educacional no Brasil 2016)

A Pesquisa Nacional sobre o Ambiente Educacional no Brasil 2016 mostra a dimensão das “experiências de adolescentes, jovens lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais” em escolas do País. A amostra se compõe com as respostas de 1.016 estudantes que têm entre 13 e 21 anos e são representativos de todos os estados brasileiros (à exceção do Tocantins) e do Distrito Federal. Os dados foram colhidos entre dezembro de 2015 e março de 2016.

Dos participantes, 46,9% se identificaram como sendo do gênero feminino; 70,7%, como gay ou lésbica; e os demais, como bissexuais ou de outra orientação sexual que não a heterossexual.

A pesquisa foi realizada por um questionário online sobre as experiências no ano letivo de 2015: “Incluindo ter ouvido comentários preconceituosos, sentir-se (in)seguro/a, ser agredido/a e se sentir bem na escola. Também foram perguntados/as sobre suas experiências acadêmicas, atitudes em relação à escola e a disponibilidade de acolhimento para estudantes LGBT na escola”. A íntegra do estudo pode ser acessada pelo endereço eletrônico:http://www.abglt.org.br/docs/IAE-Brasil.pdf

Via: O Povo

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