Preconceito no esporte: quando a homofobia é o maior adversário

Hoje começa o evento esportivo mais importante do mundo, os Jogos Olímpicos da Era Moderna. Apesar do esporte ser uma das coisas mais antigas já inventadas pela humanidade, sua relação com a orientação sexual e identidade de gênero não é algo tranquilo, ainda mais em modalidades coletivas.

Esportes são, principalmente, uma forma de culto ao corpo humano e ao esforço que ele é capaz. Relação bem traduzida no polêmico filme de Leni Riefenstahl sobre as Olimpíadas em Berlim durante o regime nazista – na verdade uma propaganda do regime e da equivocada superioridade ariana – chamado “OLYMPIA”. Superar seus limites e quebrar recordes, algumas vezes, é usado como forma de exaltar a capacidade que esta máquina tem de se superar, e originalmente isso foi atrelado à virilidade masculina.

As mulheres foram conquistando seu espaço neste terreno, mas não dividem igualmente com os homens os louros das medalhas olímpicas. Poucas delas gozam de tanto prestígio e ganhos financeiros quanto o mundo esportivo é capaz de proporcionar aos seus grandes ídolos homens. Um exemplo é a grande jogadora Marta, que não me deixa mentir. O machismo que segrega a mulher a um distante segundo lugar neste pódio, não daria aos LGBTs nem medalha de bronze.

O meio esportivo é um dos mais complicados para se sair do armário e um dos motivos é a ideia de que se assumir gay significa ser menos viril, o que atrapalharia o desempenho esportivo.

Homens gays não aguentariam o tranco de um esporte mais violento e mulheres lésbicas seriam masculinizadas demais, o que seria injusto para as demais competidoras hétero, numa associação de ideias tão preconceituosas quanto repetidas entre os campos e ginásios.

Sem contar o temor insano que surge na mente de algumas pessoas em se imaginar dividindo um vestiário com alguém de orientação sexual diferente da sua. Como se tudo o que gays quisessem na vida fosse única e exclusivamente invadir vestiários e como se héteros fossem as pessoas mais lindas e desejáveis no mundo para os gays.

Há quem ache que o ginásio esportivo (ou campo, ou piscina, ou seja onde for praticado o esporte) é um lugar sagrado, livre de qualquer ideologia política, de orientação sexual ou de gênero. Ledo engano. Atletas judeus se recusaram a ir para as Olimpíadas na Alemanha nazista de 1936; atletas negros levantaram o punho em saudação aos Panteras Negras em 1968, na cidade do México; e em 2014, atletas gays se recusaram a participar das Olimpíadas de Inverno, na Rússia de Putin. Infelizmente, ou felizmente, não existe lugar isolado do mundo no mundo.

Exposição de posturas políticas acontecerão, assim como, lamentavelmente, existirá manifestação de preconceitos. Vide a matéria sobre as ofensas que atletas já ouviram durante os jogos e ser chamado de “viado” e “sapatão” encabeçam as listas. Mas o caminho no sentido oposto a varrer o assunto para debaixo do tapete também está sendo trilhado. Cada vez mais, muitas vezes pondo em risco contratos milionários de publicidade, atletas estão assumindo sua homossexualidade e até transgeneridade, como Caitlyn Jenner.

E não pense ser descabido citar aqui alguém que se descobriu transexual quando já não praticava o esporte profissionalmente, pois depois de sua aposentadoria, atletas ainda são tidos como ídolos a serem seguidos por milhões de jovens, esportistas ou não. Lembre-se que Lea T ganhou os noticiários brasileiros sobretudo por ser filha do ex jogador de futebol Toninho Cerezo, proveniente de um dos esportes mais preconceituosos e machistas de todos.

Afinal, que outro nome pode ser dado ao que já fizeram com o Richarlyson, ex-jogador do São Paulo, se não o mais puro preconceito LGBTfóbico e machista dos últimos tempos no esporte? “

Talvez até o fato de eu estar aqui demonstrando um certo conhecimento sobre esporte cause estranheza no público que lê uma coluna de temática LGBT.

Se a carapuça te serviu, saiba que isso também é preconceito. Pensar que esporte não é bem assunto que um gay domine é corroborar com quem diz que gays não dariam conta de marcar um gol na linha do pênalti. Então, por favor, não se rebaixe concordando com quem te acha incapaz de realizar qualquer coisa. Essa atitude é inteiramente antidesportiva.

Por Ítalo Dasmaceno – Via Metrópoles

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