Por que tantos gays são misóginos?

“Alguns dos piores casos de misoginia que eu já enfrentei vieram de homens gays. Dá a sensação de que quase é mais nojento que a vinda de homens héteros. Tipo, a pessoa não está nem tentando expressar interesse sexual por mim, a pessoa está apenas impondo sua dominância sobre meu corpo só porque é homem – a pessoa está fazendo isso só porque pode.”

Victoria Sin é uma mulher queer que vive em Londres e é também uma drag queen mulher. Quando Sin apareceu recentemente num documentário sobre a arte drag, alguns gays acusaram-na raivosamente no Facebook de ter se “apropriado” da cultura gay e da arte drag. “Eu estou me apropriando do que? Isso não passa de misoginia e é tão idiota, de várias maneiras”, reclama ela.

O tópico da misoginia entre os gays é difícil de abordar. Experiência própria: os homens simplesmente recusam-se a acreditar que o fenômeno existe, ou a conversa é desviada rapidamente (“tá bom, mas e as mulheres homofóbicas?”).

Eu tenho um corpo masculino, sou bissexual, e também sou genderqueer. Mas eu já passei por misoginia vinda de homens gays e héteros por causa da minha feminilidade aparente. Durante uma festa composta em grande parte por homens gays que trabalhavam numa consultoria política, perguntaram para mim “O que você faz, querido? Algo divertido, tipo moda?”. Naquele momento eu estava usando salto alto, batom vermelho e um top cropped transparente. “Não”, respondi secamente. “Eu trabalho como advogado comercial no Centro, e também sou escritor freelancer.” A resposta: “Sério mesmo?”.

A misoginia pode variar do nível insidioso ao mais explicitamente vil e provocador – como o colunista Milo Yiannopoulos demonstrou recentemente em seu ensaio sobre o feminismo, no qual ele descreve mulheres como “aquelas amigas das bichas que não dá pra fuder e há tanto tempo vêm pegando carona na nossa trilha cheia de classe”. Em novembro a atriz e cantora Rose McGowan discutiu a misoginia vinda de gays da mídia pela qual passou, declarando “Os homens gays são tão misóginos quanto os homens héteros, quem sabe mais. Eu estou passando por uma inquisição da comunidade gay agora, estou muito chateada com eles.”

Na verdade, os conflitos a respeito da misoginia persistem desde que o movimento pelos direitos LGBT teve início. A Gay Liberation Front, grupo que organizou a primeira Parada do Orgulho LGBT de Londres, foi símbolo do movimento pela emancipação queer no Reino Unido. Ela surgiu em 1970, mas em 1973 já havia se despedaçado em várias linhas políticas – uma das quais era o gênero. Um editorial da edição número 2 de Gay Left, uma revista socialista publicada por homens gays em 1976, reflete sobre seus efeitos no movimento:

Quando ocorreu a cisão entre as mulheres e os homens no movimento… os homens gays tornaram-se mais isolados dentro de um novo gueto. Depois disso, muitos dos questionamentos sérios sobre os papéis de gênero desapareceram… O movimento gay masculino, ao invés de desafiar e confrontar o sexismo, tornou-se cada vez mais defensivo.

Em seu panfleto de 1995 Lesbophobia: Gay Men and Misoginy (“Lesbofobia: homens gays e misoginia”), a escritora Megan Radclyffe repara que muitas lésbicas saíram da GLF em 1971, citando a crença de Janet Dixon, um dos membros originais da organização, de que “no fim, mais uma vez, as mulheres estavam servindo aos homens, as mulheres estavam aumentando a conscientização… [e] estavam dando toda sua energia para os homens.”

Historicamente, o ativismo lésbico tem sido indistinguível do feminismo; afinal de contas, a liberação das mulheres queer exigia desmontar os papéis de gênero e as estruturas familiares que oprimem todas as mulheres. Para ex-membros da GLF como Dixon, tornou-se claro que alguns homens gays estavam em busca de uma forma de liberação que criava uma licença para suas preferências sexuais, sem com isso ameaçar sua posição social como homens num patriarcado.

A homossexualidade masculina tem histórias múltiplas – claro, ela foi em grande parte demonizada pela sociedade judaico-cristã ocidental como um desvio sexual do papel de gênero correto para os homens. Mesmo assim há também outras narrativas, moldadas da noção romântica e erotizada do elo entre os homens da Grécia Antiga, vista nos poemas de Homero como mais importante que as relações com as mulheres. Essa história paralela é visível na celebração da beleza masculina da arte renascentista, assim como nos escritos de Walter Pater, um crítico do século 19 que escrevia muito sobre a estética da beleza e “amizade” masculina.

“Não há dúvida de que isso existia”, concorda o Dr. Sam Solomon, um professor de inglês da Universidade de Sussex e co-diretor do Centro de Estudos da Dissidência Sexual, “apesar de que dependia muito da classe social: esse era um ideal de ligações e avanços sociais possíveis apenas para homens ricos e educados. Outros homens e mulheres estavam excluídos.”

Na verdade, a crença da superioridade inerente dos homens gays sobre as mulheres está presente desde o século 19. O dr. Solomon aponta para Edward Carpenter, um dos primeiros socialistas a defender a homossexualidade. Ele acreditava que homens que desejavam homens “não eram ‘afeminados’, mas sim continham as qualidades que faziam deles os melhores promotores do progresso social.” Carpenter argumentava que os uranianos homens (como ele se referia aos homossexuais) combinavam perfeitamente a franqueza masculina e a sensibilidade emocional feminina.

Eu já vi a herança social dessa ideia em meu trabalho como advogado, em que os ganhos entre os escalões mais baixos da profissão são divididos igualmente entre os gêneros. Nos mais altos, apenas 24% dos associados de empresas comerciais britânicas são mulheres. Por outro lado, escritórios como Freshfields e Simmons & Simmons estão entre os mais elogiados por organizações LGBT como Stonewall UK por serem gay-friendly e terem a maior quantidade de sócios ou assistentes jurídicos gays.

Em algumas esferas corporativas, os gays estão avançando mais e mais rápido que suas colegas mulheres. Não chega a surpreender que eles prefiram apresentar menos desafios ao status quo dos gêneros; eles podem até reforçar maneiras centradas no homem de se trabalhar, que não consideram barreiras constantes que afetam as mulheres, como licença-maternidade e creches.

Talvez o homem gay profissional moderno tenha a culpa de muitas vezes beneficiar-se do sexismo, mais do que diretamente cometê-lo. Mas o sexismo entre os homens gays pode acontecer de formas mais diretas. A reclamação mais comum das mulheres com que conversei envolve a visão muitas vezes inapropriada que os homens gays têm dos corpos das mulheres. Às vezes isso acontece sob o disfarce da apreciação – gays bêbados que pegam nos peitos das mulheres ou se esfregam nelas enquanto dançam em boates, e depois ficam irritados quando elas reclamam.

“Quando eu era mais nova, muitos gays passavam a mão em mim onde onão deviam e depois diziam ‘não conta porque eu sou gay!’. Conta sim, porque eu ainda sou uma pessoa que merece respeito”, diz Victoria sin. Eu lhe digo que muitas vezes eu ouço comentários atravessados como “Vaginas me dão nojo, não sei como alguém é capaz de fazer sexo com  uma”, e Sin concorda. “Se eu falo da minha menstruação, eu tenho amigos gays que dizem ‘ai, para, isso é nojento!’. Não, isso é meu corpo e não é nojento.” Isso, na minha opinião, também vem de uma maneira preguiçosa e impensada dos gays de reforçarem sua identidade sexual – mas reforçar que você gosta de pau não quer dizer que você tem que afetar um nojo por mulheres e seus corpos. É tão ofensivo quanto ridículo: afinal de contas, chega a ser insólito que pessoas que fazem tanto sexo anal achem que uma vagina é nojenta.

A “cena” gay, se é que isso existe, também demonstra sinais de problemas institucionais contra as mulheres. “Quando eu fui para a G-A-Y [uma boate de Londres], me disseram, por eu ser uma mulher feminina, que eu não ‘era sócia’ – seja lá o que isso for – enquanto meus amigos homens, todos vistos como gays, eram recebidos de braços abertos”, relatou a escritora berlinense Josie Thaddeus-Johns. “Isso foi antes de eu me identificar como bissexual, então também é meio triste pensar que mulheres que não estão preparadas para tais rótulos têm que lidar com a patrulha gay antes mesmo de entrar num espaço queer… Um grupo dominado e gerido por homens está, basicamente, me dizendo como eu, uma mulher, tenho que me apresentar para ‘ser incluída’.”

Quando permitem que mulheres entrem, muitas vezes elas são relegadas a um espaço totalmente separado. “Por que sempre colocam as lésbicas no porão”, questiona Sin. “Mesmo quando é uma noite que deveria ser lésbica ou simplesmente ‘queer’, se ela acontece num espaço gay voltado para homens, haverá homens que veem isso como uma invasão de ‘seu espaço’. Uma vez um cara num bar interrompeu uma conversa entre eu e uma amiga dizendo ‘Aff, foi mal, tem estrogênio demais nessa conversa.’”

Lyall Hakaraia, proprietária do estabelecimento queer Vogue Fabrics, na parte leste de Londres, acredita que isso vem da história dos estabelecimentos gays na maioria das cidades. “É tudo questão de sexo. É uma armadilha mental que ainda existe, de que os homens só podem funcionar de maneira sexual se as mulheres não estiverem ao redor, o que é verdade para algumas mulheres, mas não para todas. Isso foi distorcido para significar que as mulheres simplesmente não deveriam estar por perto, e que de alguma maneira vão estragar o ambiente se estiverem. Há muita diferença entre um clube de sexo, planejado especificamente para pegação e caça, e uma balada – infelizmente, muitos gays não conseguem enxergar a diferença entre as duas coisas.”

A referência que Sin fez à feminilidade escondida “no porão” acaba sendo uma boa metáfora para muitas das atitudes dos gays com relação ao sexo em si. Em aplicativos de encontros gays, os homens frequentemente descrevem suas preferências por parceiros masculinos ou que ajam como héteros, com alguns perfis explicitamente especificando “nada de afeminados”. Por outro lado, as expressões de desejo muitas vezes são fetichizantes, rudes, e indesejadas. Essa manhã mesmo, um galã veio me perguntar no Grindr “Quer vestir calcinha e meia-calça pra mim, putinha?”. Esse tipo de misoginia refratada também é projetada nos papéis de ativo e passivo no sexo gay: se eu estou de rímel na minha foto de perfil, eu posso esperar que vão me dizer como meu “buraco” vai ser socado, estragado, ou destruído.

“Eu nunca disse pra ninguém com quem eu saí como eu gostaria que ele se comportasse ou aparentasse – mas observo que os gays nunca se dão conta de que estão fazendo uso desse privilégio”, observa Shy Charles. Esse músico genderqueer de 25 anos exibe cabelo comprido e barba longa, ao lado de unhas elaboradamente pintadas e maquiagem nos olhos, diariamente.

“Os gays não percebem que quando dizem ‘não venha me encontrar vestido feminino demais’, eles estão pedindo para que eu finja ser alguém que não sou para agradar às preferências sexuais deles”, continua Shy Charles. “Uma vez um gay veio me dizer que era um ‘desperdício’ que eu não fazia musculação nem cortava meu cabelo – que, por não ter a aparência convencionalmente masculina, eu estava me ‘jogando fora’. Como se meu principal objetivo na vida fosse ser atraente para pessoas como ele, e eu só precisasse de um pouco de orientação! Como se minha aparência fosse algum tipo de acidente.”

Alguns gays não acham apenas que têm o direito de patrulhar a aparência de queers não-binários ou de apresentação feminina em contextos sexuais ou românticos – eles também fazem o mesmo sem pestanejar com relação às mulheres, principalmente mulheres na mídia. A “celebração” frequente de ícones pop femininas chega perigosamente perto de dar permissão a um direito de se “criticar” as mulheres em geral, especificamente com critérios tipicamente sexistas como seu peso ou sua beleza física. Apesar das mulheres na mídia não terem que ser atraentes sexualmente para os homens gays, ainda há uma expectativa ampla de que elas devem ter aparências glamurosas, fáceis, e “icônicas” – uma exigência irreal e idealizada por mulheres poderosas e irretocáveis.

Entre os gays brancos, a idolatria de artistas mulheres negras como Beyoncé, misturada com gírias retiradas de RuPaul’s Drag Race, pode produzir estereótipos excruciantes das mulheres negras – disfarçados de elogios. Na Push The Button, uma noite gay de música pop em Londres, gays brancos apareceram na festa anual em homenagem às Spice Girls exibindo perucas afro e com a pele pintada, aparentemente em homenagem a Mel B.

“Eu já ouvi gays brancos dizerem, brincando, que têm uma ‘negra forte’ dentro de si. É um estereótipo cultural que deixa implícito que mulheres negras não têm quaisquer problemas, e reduz nossa vivência”, explica Ava Vidal, comediante stand-up e escritora. “Isso acontece muito – imitar os gestos dos negros, brincar sobre suas ‘tranças’ – sem perceber como isso nos desumaniza. Não é um elogio. Eles querem para si todas as partes divertidas de nossa cultura, sem passar pelas partes ruins.”

O que acontece quando ela desafia esses gays? “Eles ficam agressivos e quase agridem quem faz isso. Esses homens brancos não estão dando ouvidos às mulheres negras. Quantas vezes eles têm que ouvir a mesma coisa até escutarem o que está sendo dito?”

As mulheres negras encaram uma discriminação dupla na sociedade branca e patriarcal; igualar casualmente a vivência de um homem gay com a de uma mulher negra é apropriação, não solidariedade. Mulheres transgênero encaram opressões de complexidade similar e – como as mulheres cis negras – muitas vezes podem ser reduzidas a estereótipos na mídia, separadas de sua vivência real de serem fortes, tenazes ou valentes.

A verdade é que os gays cisgênero devem muitas de suas liberdades históricas às mulheres trans; foram as mulheres trans que lideraram a olta stotarevolta de Stonewall em 1969. Mas os homens gays (juntamente de lésbicas e bissexuais cis) têm um histórico falho no que se trata de solidariedade política com pessoas trans, particularmente mulheres trans. A instituição beneficiente Stonewall, a principal voltada à comunidade LGBT no Reino Unido, cujo nome vem desse conflito, não lidou oficialmente com questões trans até fevereiro de 2015 – 16 anos depois de sua fundação. É claro que a maioria das organizações de porte aprenderam com seus erros do passado e estão se dedicando para trabalhar melhor com questões trans. Mas se a petição recente de se “retirar o T” de “LGBT” servir de indício, a transfobia ainda persiste na comunidade gay.

Para realmente incluir as mulheres trans em sua política, os homens gays (e, na verdade, todas as pessoas LGB cis) precisam escutar e descobrir onde a comunidade continua a ignorá-las ou deixá-las na mão. Estar aberto a ouvir críticas, no entanto, é muito mais difícil que o tom celebratório de “aceitação” propagado pela grande mídia. A capa de Vanity Fair com Caitlyn Jenner sem dúvida foi um marco na visibilidade trans, por exemplo, mas sua embalagem de alto orçamento e superretocada foi tão rasa quanto qualquer celebridade. A reação de muitos gays no Twitter seguiu na mesma linha: “Lacroooou, rainha!”.

A performance eficaz de Jenner de uma feminilidade aceitável quando saiu do armário não reflete a experiência da maioria das mulheres trans quando fazem a transição. A atriz e modelo trans Hari Nef apontou isso durante uma entrevista para a The Coveteur: “As pessoas veem ser transgênero como algo que se limita à apresentação, e portanto sem autenticidade; as pessoas veem os corpos trans como ‘sem autenticidade’ por si só. Eu mereço que a plateia grite ‘Lacroooou’ mesmo que eu esteja usando uma blusa de moletom e calça de pijama.”

É importante que a adoração dos homens gays por Jenner e suas irmãs trans anônimas vá além da mera apreciação estética de sua coragem e “sucesso” cosmético, e siga para a compreensão de que nenhum corpo feminino está à disposição para avaliação, críticas, ou consumo. Para as mulheres trans, seus corpos são o cenário de uma guerra cultural – uma guerra que mata um número cada vez maior de pessoas.

Nick Adams, diretor do Programa de Mídia Trans da GLAAD, vem trabalhando com a representação das questões trans na grande mídia americana há 17 anos. O próprio Nick é trans, e homem gay. “É impossível estabelecer uma correlação científica entre a visibilidade crescente das mulheres trans na mídia e o aumento no número de mulheres trans assassinadas nos EUA”, pondera, “mas devemos estar cientes dessa possibilidade. Até agora, em 2015, 20 mulheres trans ou pessoas fora da conformidade de gênero foram assassinadas, mais do que no ano passado.”

Adams permanece otimista quanto ao apoio político da comunidade dos homens gays pelas pessoas trans, apontando para os marcos conquistados nos últimos anos pela representação trans, e o impacto cada vez maior do ativismo e da comunicação online. “Se você reparar narevolta generalizada com o último filme de Roland Emmerich, Stonewall, que colocou como protagonista um homem gay cis ao invés de Martha P. Johnson, uma mulher trans negra da vida real – pode-se ver como a compreensão dos gays quanto a isso está crescendo, o que é positivo.”

É positivo, mas para que haja maior progresso deve-se sempre examinar criticamente o que pode ser feito de maneira melhor. A homofobia não é o irmão da misoginia; é seu filho. O patriarcado odeia os homens gays porque eles comportam-se sexualmente “como mulheres”, e odeia o lesbianismo porque lésbicas são mulheres que “se recusam” a trepar com homens, e odeia pessoas trans porque sua existência demonstra a fragilidade de tantas de suas supostas verdades.

Nós todos somos prejudicados pelo patriarcado, mas de muitas maneiras os gays são os que estão numa posição de serem seduzidos para conspirarem a favor dele. Os chamados para essa conspiração muitas vezes são traiçoeiros e imperceptíveis dentro da própria masculinidade. Portanto, ouvir às vozes – e reclamações – das mulheres, de gays afeminados, e pessoas trans não-binárias é crucial para todos os homens gays. Sem isso, eles podem descobrir que um mundo em que há uma liberação tão frágil, obtido às custas dos outros, realmente é um mundo contraditório – sem qualquer liberação real.

Traduzido do artigo de Seán Faye para o site Broadly – Via LadoBi

Esta entrada foi publicada em GLBTS News, Opinião do especialista e marcada com a tag , , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Uma resposta a Por que tantos gays são misóginos?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.