Shopping retira imagem de casal gay de exposição fotográfica

Imagem foi exposta, mas consumidores teriam pedido para retirá-la do saguão. Loja que tentou exibir também foi impedida

O que era para ser uma exposição fotográfica sobre os sete pecados capitais acabou abrindo uma discussão mais ampla em Santa Cruz do Sul. Isso porque as imagens feitas pela aluna do curso de Fotografia da Unisc, Paula Saldanha Werlang, de 20 anos, para retratar o pecado da luxúria foram vetadas pela direção do Shopping Germânia, onde o trabalho foi exposto. O motivo: as fotos mostravam os namorados Brendon Lopes e André Policena, ambos de 20 anos, sem camisa e trocando carinhos. O shopping confirma que as imagens foram retiradas após reclamação de clientes, que as julgaram ofensivas, mas garante que o estabelecimento não tem restrições ao público LGBT.

A exposição foi montada na manhã do último dia 24, antes de o shopping abrir, e deveria ficar no local até o dia 26. No entanto, horas depois a gerência pediu que as fotos do casal homossexual fossem retiradas. Segundo a estudante, o argumento era que “as imagens escolhidas para ilustrar o pecado da luxúria poderiam sujar a imagem do shopping perante os frequentadores”, que teriam reclamado. A gerência teria explicado ainda que o local está passando por mudanças e, por isso, precisa ficar “neutro” nas discussões sobre gênero. O fluxo de crianças no local também teria sido usado como justificativa.

Uma loja de calçados que fica perto do espaço ocupado pela exposição da estudante ofereceu então que as três fotos vetadas fossem expostas no lado de dentro da vitrine. A jovem conta que aceitou, mas afirma que logo depois a gerência do shopping voltou a pedir que as imagens fossem retiradas, mesmo estando na área da loja. Segundo Paula, o sentimento é de desapontamento. “Fiquei arrasada e muito surpresa.”

 Brendon Lopes e André Policena posaram para ensaio. Foto: Paula Saldanha Werlang.

Casal considera que é preconceito

Amigos da estudante Paula Saldanha Werlang, os universitários Brendon Lopes e André Policena consideram que as imagens foram alvo de preconceito e dizem que não é a primeira vez que isso acontece. O casal, que já foi reprimido ao se beijar em público, na rua, e ao trocar carinhos dentro de uma escola, tenta não desanimar com esses episódios. “Acho que se você se importa tanto com a vida de outra pessoa, é porque a sua está precisando de cuidados e reparos”, diz Brendon.

O que dizem

O Direito
Para a área jurídica, vale o princípio da igualdade. O questionamento, conforme o professor de Direito Constitucional da Unisc, Edison Botelho Silva Júnior, é se as imagens seriam permitidas se fossem de um casal hétero. “O tratamento que você dá a um casal homoafetivo tem que ser o mesmo que você dá a um casal hétero”, explica. Para ele, o problema é que os seres humanos são diferentes e as tradições são o que suprimem a individualidade de cada um. Por isso, podem acabar não fazendo tão bem quanto o esperado.

 

Edison Botelho: área jurídica contempla igualdade. Foto: Bruno Pedry.

“Quando reprime, machuca uma pessoa, impõe à pessoa o sofrimento, e esse é o caso da questão LGBT”, explica. Com a individualidade questionada, a função da arte é demonstrar que ser diferente não é um problema. “É fácil ser hétero. É a expectativa de um padrão estabelecido”, diz Botelho. As dimensões humanas são variadas e, na arte, é praticamente impossível demonstrar todas as características que as pessoas têm. “Artista não tem padrão, é livre. Não espere uma exposição de arte que esteja dentro do padrão.”

A Psicologia
Para o psicanalista Eduardo Saraiva, professor de Psicologia na Unisc, é necessário debater o motivo de a sociedade se sentir tão ameaçada com a cena gay. Segundo ele, não há diferença alguma na mentalidade de crianças que são criadas com casais homoafetivos dentro da família. Pelo contrário, elas acabam mais acostumadas a lidar com a diferença. “Isso é fruto da educação.”

Eduardo Saraiva: questionar porque a sociedade se sente ameaçada. Foto: Bruno Pedry.

Também questiona as opiniões que relacionam orientação sexual com doença. Afinal, a homossexualidade pode ser considerada um problema mental? A palavra foi retirada da lista de transtornos mentais ou emocionais em 1973. Acreditar que ser gay é um problema, conforme Saraiva, revela que setores mais conservadores da sociedade se sentem ameaçados por essa quebra de padrões. “Amor e sexo entre duas pessoas do mesmo sexo é algo do ser humano. Isso tem que ser mais debatido.”

Fonte: gaz.com.br

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